Ouvimos com frequência “não tenho tempo para nada”. Na realidade, é verdade, não tem, nem nunca teve. Porque o tempo não é algo que se possua, é algo com que se aprende a viver.

 

Sendo psicólogo, é frequente lidar com desabafos, pensamentos, emoções, indecisões, procura de respostas (por vezes em mim?!). Acompanho pessoas que, não sofrendo necessariamente de qualquer perturbação clínica, não se sentem bem e procuram ajuda. Estão confusas, sentem-se inseguras, não se revêem na sua vida relacional, sentem-se pouco integradas, procuram um sentido. É frequente aperceberem-se de que não se colocam em primeiro lugar, que vivem o seu tempo em função de outras coisas que não dos próprios: do emprego, da relação amorosa, da opinião social... O peso das “obrigações” vai absorvendo o dia-a-dia, hábitos indesejados vão-se instalando.

 

Neste desconforto é comum haver uma temporalidade mal vivida, sofrida, como consequência de estarem pouco atentas a si próprias, ao seu estar (e aqui introduziria o pensamento de tempo segundo Heidegger, no sentido de existir, de ser, de ter um caminho, por contraste com a limitação das possibilidades do “ser”).

 

Ouvimos com frequência “não tenho tempo para nada”. Na realidade, é verdade, não tem, nem nunca teve. Porque o tempo não é algo que se possua, é algo com que se aprende a viver, é algo com que se está.

 

Também é comum ouvir-se dos mais velhos “se fosse no meu tempo…”. Sim…, se fosse nessa altura, o que faria? O que o faz agora ter outra perspetiva? Por ventura colecionou alguns arrependimentos, é natural. Calha a todos. Geralmente estes desabafos representam uma queixa ligada a algum mal-estar psicológico. É bom termos essa noção para que possamos parar e ponderar no que fazemos, se a vida nos corre bem. Ir talvez até um pouco mais longe, perceber se a vida corre como queremos, se estamos felizes — o que é distinto de “correr bem”.

 

Para responder a essa pergunta, importa permitir-se ser o protagonista, ter o compromisso de ouvir-se, situar-se e estar lúcido perante a sua própria existência. Não faria sentido um intervalo para refletir sobre o caminho que está a percorrer? Todos passamos por fases mais ou menos preenchidas da vida, muitas vezes com uma ocupação (e não falo necessariamente do trabalho) que não nos traz alegria nenhuma. Por vezes temos dificuldade em nos darmos prioridade, em dizer “não”. Ao não assumir a responsabilidade por nós próprios, na procura de uma verdadeira identidade e de uma forma de estar autêntica, arriscamo-nos a ter uma vida fútil, sem sentido, vazia de significado. A partir daqui facilmente aparece uma tendência para procurar uma resposta externa, o que alimenta dependência e ataca o sentimento de confiança e autoestima. Perante este desencontro consigo próprio, podem surgir situações mais graves como alterações do humor, que vão desde a impaciência e irritabilidade fácil, à ansiedade, à depressão...

 

É importante, por isso, que comece a procurar as respostas dentro de si, a felicidade é relativa e diz-lhe respeito. Quanto mais tempo se vai dar ao luxo de desperdiçar?

 

É absolutamente legítimo ser ambicioso, querer ir mais longe, querer “ser alguém na vida” (mas aos olhos de quem?). O que geralmente implica aceitar compromissos, mas também renúncias que podem ser dolorosas. Por isso, que sejam escolhas conscientes, suas. As que ficam, que mereçam o tempo que lhes dedica. Há coisas que ficam para trás. Somos humanos, temos os nossos limites, é bom reconhecê-lo. Há limitações que são impostas e não são fáceis de ultrapassar. Mas certamente há espaço para a mudança e para dar um sentido a essas circunstâncias, uma vez que o foco esteja no próprio.

 

Ter “tempo de qualidade” está muito em voga, está satisfeito com a forma como usa o seu? Agarrando no conceito do eterno retorno, desenvolvido por Nietzsche, posso perguntar se quer mesmo manter a sua vida, tal como está, nos próximos meses ou mesmo nos próximos anos? Semana após semana, igual. Vê-se a repetir a sua experiência? O que pensa sobre o assunto?

 

Já agora, despache-se. O tempo não espera.

 

Luís Ferraz é psicólogo clínico no CADIn – Neurodesenvolvimento e Inclusão

 

In “Público