A endometriose é uma doença crónica benigna que afeta entre 5 a 15% das mulheres em idade reprodutiva, manifestando-se frequentemente através de dor pélvica intensa e podendo estar associada a infertilidade.
Em entrevista ao IASAÚDE, a Dra. Lília Remesso, Especialista em Ginecologia e Obstetrícia do SESARAM, aborda os principais aspetos desta doença e as opções terapêuticas disponíveis, destacando o impacto positivo que a recente comparticipação de 69% em determinados medicamentos representa no acesso ao tratamento e na qualidade de vida das doentes.
1. O que é a endometriose e como se manifesta?
É uma doença crónica, benigna. As hormonas femininas são predominantemente de estrogénio e progesterona e esta é uma doença estrogênio-dependente, sendo estimulada pela presença desta hormona.
O endométrio, em vez de estar dentro da cavidade uterina, está noutros sítios. O local mais frequente é a região pélvica, mas pode estar nos pulmões, pode estar nas vesículas, pode estar nos intestinos. E, sendo assim, provoca uma reação inflamatória à volta.
Esta doença caracteriza-se, às vezes, por uma evolução meio insidiosa. Porque para as mulheres é normal terem dor de menstruação, é normal ficarem incomodadas com a menstruação. Inicialmente, a maioria das mulheres realmente refere que é mais a dor no período que é muito evidente, mas toda a gente acha que é normal. Mas depois começam a ter dores em todas as alturas e também fora da menstruação. E, dependendo da localização, podem ser dores de diversos tipos.
Portanto, a dor é, normalmente, a principal queixa. Se nós formos procurar as mulheres em idade reprodutiva, as mulheres que têm dor ou que têm infertilidade, 30 a 50% destas mulheres terão uma endometriose por trás.
2. Qual a sua prevalência e quais as faixas etárias mais afetadas?
A prevalência é um bocado difícil de estimar, uma vez que muitas das doentes são assintomáticas, podendo ser um achado em exames complementares de diagnóstico ou no exame objetivo. Estima-se, mais ou menos, que possa atingir 5 a 15% das mulheres em idade reprodutiva. No entanto, pode ser muito mais prevalente. A idade mais prevalente de diagnóstico é entre os 25 e os 35 anos.
3. Qual o impacto da medicação no tratamento desta doença?
O tratamento é muito individualizado, de acordo com as queixas. Há doentes que têm exames complementares com uma doença muito exuberante e quase que não têm dor. E há outras que têm doença inaparente. Por isso é que, muitas vezes, o atraso de diagnóstico vai de 5 a 10 anos, porque o exame objetivo é normal, os exames complementares não apresentam alterações de relevo e a doente anda 5 a 10 anos com dores, muitas vezes sendo informada que a dor é psicossomática e que é uma dor que tem a ver com o seu estado anímico, sendo muitas vezes chamadas até de alterações psiquiátricas, mas realmente é a dor crónica da alteração do bem-estar de uma pessoa.
O tratamento médico melhora e evita a progressão da doença em 40% a 60% dos casos.
Muitas vezes é suficiente e não é preciso fazer mais nada porque a doente passa a não ter dor, passa a não ter progressão da doença e tem uma boa qualidade de vida, que é isso que é importante.
4. Os apoios no acesso aos medicamentos, nomeadamente a comparticipação de 69% permitirão alargar o acesso ao tratamento?
Sim. Alguma da medicação são os progestativos e a contraceção, mas existem outros medicamentos que são muito mais caros, se estas duas não forem eficazes. Portanto, essa comparticipação vai alargar muito mais o nosso espectro, não é que nós não prescrevamos a medicação, se ela for necessária e os doentes compram, mas é muito mais difícil para algumas mulheres, ainda mais porque muitas destas mulheres, as dores que têm, cíclicas ou não cíclicas, provocam, muitas vezes, ausência nos seus trabalhos. A comparticipação de 69% é muito importante porque vai permitir que tenhamos muito mais acesso a determinada medicação e que as doentes possam fazê-la sem terem esse constrangimento monetário.
Veja aqui o vídeo onde a Médica explica o que é a doença e porque o diagnóstico é tão importante.
Entrevista a Lília Remesso,
Especialista na área de Ginecologia / Obstetrícia, do SESARAM.
Março de 2026



